FUTEBOL URUGUAYO:

'' É uma religião nacional. A única que não tem ateu. Somos poucos: 3,5 milhões de uruguayos. É menos gente do que um bairro de São Paulo. É um país minúsculo. Mas todos futebolizados. Temos um dever de gratidão com o futebol. O Uruguay foi colocado no mapa mundial a partir do bicampeonato olímpico de 1924 e 1928, pelo futebol. Ninguém nos conhecia.

O futebol uruguayo é o melhor? Não. No mundo guiado pelas leis do lucro, onde o melhor é quem ganha mais, eu quero ser o pior. Não poderíamos sequer cometer o desagradável pecado da arrogância. Seria ridículo para um país pequeno como o nosso. Não somos importantes, o que é bom. Neste mundo de compra e venda, se você é muito importante vira mercadoria. Está bom assim.

Como explicar Uruguay?.... Somos um pouco inexplicáveis. Aí é que está a graça".

EDUARDO GALEANO - Escritor

quinta-feira

URUGUAYAN SOCCER PLAYER SEBÁSTIAN COATES: LIVERPOOL

Em 2009, quando ocorreu o Sul-americano sub-20, um zagueiro uruguaio chamou muita atenção pelo seu futebol vistoso e eficiente. As qualidades eram tantas que o jogador chegou a ser comparado com ninguém menos do que Diego Lugano, ídolo e um dos símbolos da recente reconstrução do futebol daquele país.

O “cara” em questão era Sebástian Coates, que hoje é titular absoluto da zaga charrúa e joga ao lado exatamente de Lugano na seleção principal, mostrando que tal comparação não era nenhum devaneio. Perto de completar 21 anos, ele é sonho de consumo de vários clubes do mundo, do Brasil inclusive, mas ainda atua pelo Nacional, clube onde foi revelado e já conquistou um título de campeão nacional.

Cumprindo as etapas

Nascido em Montevidéu em 07 de outubro de 1990, Coates pode ser considerado um exemplo de jogador bem produzido em uma categoria de base. O defensor chegou ao Nacional do Uruguai aos 11 anos e de lá para cá cumpriu todas as etapas até a chegada aos profissionais, em 2009, com 18 anos. A prova de que o trabalho foi bem feito é que depois disso ele só cresceu e não mais voltou aos times de baixo.

Nas bases, Coates sempre demonstrou não só no que poderia se transformar tecnicamente, mas também em espírito de liderança. Por esse segundo atributo, ele foi alçado ao posto de capitão em todas as categorias que disputou no clube. Não demorou, também, para ele ter sua primeira chance na seleção uruguaia. Esta veio em 2007, com a participação no Sul-americano sub-17. A experiência, porém, foi um tanto quanto frustrante. Os charrúas sequer passaram para o hexagonal final e não puderam brigar por uma vaga no Mundial daquele ano.

Mas, individualmente, Coates dava mostras que sua evolução seguia a todo vapor. Mesmo com pouca idade, seu amadurecimento era extremamente veloz e com seu corpo robusto – já era um atleta de mais de 1,90m e quase 90 kg –, ele não mais parecia um simples juvenil. No início de 2009, ano em que subiu de nível rapidamente, Coates foi convocado para o Sul-americano sub-20 e desta vez ajudou os charrúas a brilharem também coletivamente. Os uruguaios ficaram em terceiro lugar e se classificaram ao Mundial. Nessa altura, o interesse pelo futebol do zagueiro se intensificou e Coates acabou tendo seus diretos econômicos adquiridos em 30% por um grupo de empresários brasileiro.

Suas atuações destacadas também não passaram despercebidas pelo técnico do Nacional em 2009, Gerardo Pelusso. O comandante convocou o zagueiro para integrar o time principal. E Coates não vacilou, agarrou com unhas e dentes a oportunidade. Destacou-se nos treinamentos e logo “forçou” passagem para ser titular. Pelusso não se intimidou, o escalou e Coates correspondeu com uma estreia digna de um grande zagueiro com anos de estrada. Terminou a partida contra o Bella Vista como o melhor em campo, de acordo com o jornal “El País”, e de quebra ainda entrou para a seleção da rodada, garantindo assim a titularidade para o compromisso seguinte do Nacional.

Com nova chance, Coates se saiu ainda melhor contra o Liverpool. Além de uma apresentação esplêndida, apesar da partida ter terminado 1 a 1, ele ainda marcou um gol, mostrando pela primeira vez essa sua outra boa característica. Esses dois jogos serviram para que o jogador nunca mais saísse do time titular. Graças também, claro, a sua regularidade invejável. 

Na Libertadores, onde o nível era bem mais elevado, Coates não se intimidou também e estreou marcando gol e com uma atuação segura na vitória por 3 a 1 sobre o Nacional do Paraguai. Poucos meses depois, “Luganito”, como já estava sendo chamado, foi protagonista do título uruguaio conquistado pelo Nacional ao marcar dois gols nas partidas decisivas contra o Defensor Sporting.

Do sub-20 à seleção principal

2009 foi fantástico para Coates. O jogador começou o ano treinando apenas no time de juniores do Nacional; foi convocado para a seleção sub-20 que disputou o Sul-americano e posteriormente o Mundial da categoria; subiu para os profissionais do Nacional, fez gols decisivos e se firmou como titular; e terminou o ano surpreendendo o país ao ser convocado para integrar a seleção principal.

Isso mesmo. O técnico Oscar Tabárez, atento como sempre aos jovens jogadores, foi buscar Coates na sub-20 e levou para a seleção principal do país que iria disputar nada mais, nada menos que a repescagem por uma vaga na Copa do Mundo 2010 contra a Costa Rica. Na ocasião, claro, o jogador apenas compôs o grupo e não atuou. Como seguiu com atuações de alto nível no Nacional, porém, mais convocações vieram e Coates foi parar na Copa do Mundo, integrando o elenco uruguaio que fez história depois de dezenas de anos e terminou em quarto lugar, como todos sabem.

Seu grande momento, no entanto, ainda estava por vir. Na Copa América da Argentina, Coates ganhou a posição na zaga charrúa e atuou contra o Chile na segunda rodada ao lado de Diego Lugano, seu mentor e grande espelho desde o início da carreira. Daí em diante, ele só foi sacado do time diante dos argentinos nas quartas de final, mas retomou o posto na semi e na final. Além do título, Coates faturou também o prêmio de melhor jogador jovem da competição.

Com um pé na Europa

Aos 20 anos e jogando futebol de gente grande, o destino de Coates não poderá ser diferente da Europa muito brevemente. As negociações para a sua saída já vêm de longa data e a quantidade de times interessados só aumentam. No Brasil, São Paulo e Fluminense já chegaram a se aproximar, assim como times do leste europeu.

Seu destino, porém, vem sendo cuidadosamente decidido e ele só deverá sair para um time de porte do futebol europeu. A transferência está de perto de ocorrer. No último final de semana, Coates rumou para a Inglaterra para fazer exames e fechar com o Liverpool. O acerto está muito próximo por algo em torno de sete de milhões de libras, mas o Atlético de Madrid estaria também na jogada oferecendo um milhão a mais.