FUTEBOL URUGUAYO:

'' É uma religião nacional. A única que não tem ateu. Somos poucos: 3,5 milhões de uruguayos. É menos gente do que um bairro de São Paulo. É um país minúsculo. Mas todos futebolizados. Temos um dever de gratidão com o futebol. O Uruguay foi colocado no mapa mundial a partir do bicampeonato olímpico de 1924 e 1928, pelo futebol. Ninguém nos conhecia.

O futebol uruguayo é o melhor? Não. No mundo guiado pelas leis do lucro, onde o melhor é quem ganha mais, eu quero ser o pior. Não poderíamos sequer cometer o desagradável pecado da arrogância. Seria ridículo para um país pequeno como o nosso. Não somos importantes, o que é bom. Neste mundo de compra e venda, se você é muito importante vira mercadoria. Está bom assim.

Como explicar Uruguay?.... Somos um pouco inexplicáveis. Aí é que está a graça".

EDUARDO GALEANO - Escritor

quarta-feira

HÁ 100 ANOS, PRIMEIRA EDIÇÃO DA COPA AMÉRICA COMEÇAVA COM GOLEADA NO RACISMO

Autor: Fred Gomes*
Se a 43ª Copa América começou nessa sexta-feira, em La Plata, com o empate entre Argentina e Bolívia (1 a 1), a primeira edição do torneio – na época ainda denominado Sul-Americano – teve início há exatos 100 anos. Em 2 de julho de 1916, no Estádio Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires. Diante de 3 mil presentes, o Uruguai goleou o Chile: 4 a 0.
Aos 44 minutos do primeiro tempo, Piendibene, um atacante de origem inglesa, ruivo e muito alto, se tornou o primeiro jogador a marcar um gol na competição. Aos dez do segundo tempo, o negro Isabelino Gradín (penúltimo agachado, a partir da esquerda) ampliou o placar. A dupla, que atuava pelo Peñarol, voltou a marcar uma vez cada para completar o marcador.
E logo no primeiro duelo válido pela competição de seleções mais antiga do futebol já houve polêmica. Após a derrota, os chilenos acusaram os uruguaios de terem escalado dois africanos em sua equipe. Além de Gradín, o outro negro utilizado pela Celeste foi o meio-campista Jose Delgado (primeiro agachado, a partir da esquerda).
Chamados jocosamente de “atletas do carnaval” pelos rivais, ambos tiveram suas nacionalidades uruguaias reconhecidas, e a vitória foi confirmada dentro e fora de campo. Um triunfo sobre o racismo.
Isabelino Gradín seguiu vencendo barreiras literalmente – ele também representava o Uruguai no atletismo, como velocista. Nesta modalidade, ele quebrou o recorde sul-americano dos 800 metros rasos, em 1919, ano em que disputou paralelamente a terceira Copa América, realizada no Brasil. Segundo o jornalista Mário Filho, que empresta seu nome ao Maracanã, o atacante teve fundamental importância na entrada dos negros no futebol brasileiro.
Jogador uruguaio Isabelino Gradín
Já o companheiro Piendibene também é figura crucial na história do futebol uruguaio. É considerado por muitos o maior jogador do país na era amadora, compreendida entre 1900 e 1932. Ganhou o apelido de “El Maestro”, conquistado após atuação memorável contra a Argentina.
Detalhe: o nome partiu do respeitado zagueiro adversário Jorge Brown, que sofreu com os dois gols marcados por Piendi naquele 16 de outubro de 1911.
A Copa América de 1916 teve um ponto final em 17 de julho, com o empate por 0 a 0 entre a anfitriã Argentina e o Uruguai. O torneio, que foi disputado por pontos corridos entre as duas seleções, Chile e Brasil, teve como campeão o time de Gradín, artilheiro com três gols, e Piendibene.
FICHA TÉCNICA:
URUGUAI 4 x 0 CHILE
Data: 02/07/16.
Estádio: Gimnasia y Esgrima, Buenos Aires.
Competição: Sul-Americano de Futebol.
Árbitro: Hugo Gronda (ARG).
Público: 3.000 presentes
Uruguai: Saporiti; Castelino e Foglino; Pacheco, Delgado e Varela; Somma, Romano, Piendibene, Gradín e Brachi
Chile: Guerrero; Cárdenas e Wittke; Abello, Teuche e Unzaga; Salazar, Fuentes, Gutiérrez, Moreno e Geldes
Gols: Piendibene, aos 44 minutos do primeiro tempo; Gradín, aos dez e aos 25 minutos do segundo tempo; Piendibene, aos 30 minutos do segundo tempo.
*Jornalista, repórter do GloboEsporte.com



La pelota - 1916