FUTEBOL URUGUAYO:

'' É uma religião nacional. A única que não tem ateu. Somos poucos: 3,5 milhões de uruguayos. É menos gente do que um bairro de São Paulo. É um país minúsculo. Mas todos futebolizados. Temos um dever de gratidão com o futebol. O Uruguay foi colocado no mapa mundial a partir do bicampeonato olímpico de 1924 e 1928, pelo futebol. Ninguém nos conhecia.

O futebol uruguayo é o melhor? Não. No mundo guiado pelas leis do lucro, onde o melhor é quem ganha mais, eu quero ser o pior. Não poderíamos sequer cometer o desagradável pecado da arrogância. Seria ridículo para um país pequeno como o nosso. Não somos importantes, o que é bom. Neste mundo de compra e venda, se você é muito importante vira mercadoria. Está bom assim.

Como explicar Uruguay?.... Somos um pouco inexplicáveis. Aí é que está a graça".

EDUARDO GALEANO - Escritor

quinta-feira

JOGADOR URUGUAYO ABEL HERNANDEZ



Autor: Lucas Alencar
Exemplos de superação no futebol são sempre lembrados. Normalmente, porém, são casos de jogadores que se lesionam e dão a volta por cima. No caso de Abel Hernández, atacante uruguaio atualmente no Palermo, seu problema foi muito maior. Com apenas 18 anos, foi detectado no jogador uma hipertrofia e arritmia cardíaca, que por muito pouco não lhe tiraram dos gramados em definitivo.

Superado o problema, o atacante provou que estava curado e, desde 2009, sua batalha é com os zagueiros dentro do campo, disputa na qual tem levado vantagem na maioria das vezes. Que digam os defensores brasileiros no Sul-Americano Sub-20 de 2009, competição que foi o ponto de partida para que Abel Hernández começasse uma carreira promissora na Europa. E que já tem surtido alguns frutos.  

Aparição meteórica

Natural da pequena Pando, cidade localizada na província de Canelones no Uruguai, Abel Mathías Hernández Platero aprendeu com o futebol a lidar com mudanças repentinas na vida. Pouco mais de um ano depois de profissionalizar-se, o jogador já havia conquistado grande parte de tudo o que tem até o momento.

Em 2008, pouco tempo após tornar-se profissional pelo pequeno Centro Español, a vida de Hernández saiu da água pro vinho. Desconhecido até então, o jogador mostrou suas credenciais no Campeonato Uruguaio 2007/08 ao marcar cinco vezes em quatro jogos, o suficiente para chamar a atenção dos treinadores da seleção sub-20 e do Peñarol.

O Peñarol resolveu pagar pra ver e firmou contrato de empréstimo com o jogador – com opção de compra após um ano – e viu que realmente se tratava de um grande talento, uma verdadeira joia, adjetivo no qual foi transformado em alcunha para Abel Hernández.

Vestindo a camisa de um grande, seu passaporte para defender a seleção sub-20 foi dado rapidamente. La Joya, como ficara conhecido a partir daquele ano, aproveitou a chance e não largou mais a camisa celeste. Quis o destino, no entanto, que Hernández tivesse que passar por uma prova de fogo fora dos gramados.

Ainda em 2008, em exames de rotina no seu novo clube, Peñarol,
Hernández foi pego de surpresa com a constatação de que sofria de problemas cardíacos. La Joya tinha uma arritmia e uma hipertrofia no coração, o que lhe impediu de imediato a continuar jogando e treinando. Hernández se viu com um problema que ele nada poderia fazer para solucionar, a não ser confiar no trabalho dos médicos.

Felizmente para ele (naquele momento), o caso foi rapidamente solucionado e foi dada outra vez condições de jogo a ele. Meses depois, porém, se saberia que foi um risco o seu retorno.

A ida para a Europa e o retorno dos problemas cardíacos

2009 foi um ano que aconteceu de tudo na vida de Abel Hernández. Há pouco tempo no Peñarol, até então, o atacante jamais imaginaria que a Europa estava tão perto de si, apesar de saber que o Sul-Americano Sub-20 e posteriormente o Mundial daquele ano poderiam ser decisivos para o seu futuro.

E foi no Sul-Americano que tudo aconteceu. Um dos artilheiros da competição com cinco gols, carrasco do Brasil em duas oportunidades quando marcou por três vezes, embora no segundo confronto o time uruguaio tenha saído perdedor, Hernández cortou um caminho que para muitos é considerado longo e, ao final da competição, já estava com tudo acertado para rumar para a Europa.

Certamente, os gols contra o Brasil foram os que chamaram a atenção dos olheiros europeus, mas os outros dois tentos assinalados por Hernández foram considerados chaves para a classificação uruguaia ao Mundial. Primeiro diante da Argentina, na vitória por 2 a 1. Depois no difícil empate em 2 a 2 contra o Paraguai, quando a Celeste estava atrás do marcador e foi buscar o resultado no final do jogo. Ambos os gols foram de suma importância, pois sem eles o Uruguai terminaria na quinta posição e ficaria de fora da Copa do Mundo Sub-20.

Artilharia, herói da classificação para o Mundial, contrato firmado com o Palermo. Tudo beirava a perfeição na curta carreira de Hernández, até que nos exames médicos para admissão no clube italiano foram detectados os mesmos problemas que o jogador sofria em outrora. Desta vez, porém, ele foi afastado e só retornou ao futebol depois de uma cirurgia. Por esse motivo, também, Hernández só assinou pelo time rosanero um mês após se apresentar. Lá, encontrou Cavani, espelho de sucesso em Sul-Americano Sub-20 e afirmação imediata na Itália.

Enfim, só futebol

No final da temporada 2009/10, finalmente Hernández pode pensar apenas em futebol. Recuperado totalmente da enfermidade no coração, o jogador se incorporou totalmente ao elenco do Palermo e passou a ser eventualmente utilizado no Italiano. Terminou a temporada sem marcar, mas com seis aparições (entrando como substituto) e uma assistência. Para quem passou por adversidades como a dele já era muito.

Na temporada seguinte, já plenamente entrosado com os novos companheiros, o atacante deu mostras do que poderia conseguir. Ainda como opção para o banco, Hernández deixou de ser apenas um eventual substituto durante os jogos e passou a ser peça constante do esquema do treinador. Atuou por 21 vezes, sendo oito desde o início e contribuiu com sete gols, excelente marca para um atacante ainda em formação e sem status de titular.

Paralelamente, em setembro de 2009, Hernández voltou a vestir a camisa celeste sub-20 e participou do Mundial. Por “azar”, após uma grande primeira fase, os uruguaios bateram de frente com o Brasil logo na segunda fase e foram eliminados. La Joya conseguiu boas apresentações e terminou o torneio com um gol assinalado.

Ainda na temporada 2009/10, em março, o jogador foi pretendido pelo Arsenal, para ser o “homem-alvo” do ataque dos Gunners, mas as negociações não vingaram. Depois da Copa 2010, já fazendo parte de um processo de renovação da Celeste Olímpica, Hernández foi convocado pela primeira vez para a seleção principal e é apontado por muitos como figura certa na próxima Copa do Mundo e também nos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres.



FONTE: OLHEIROS